As pessoas que decidimos não existirem

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011 0 comentários

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As pessoas que decidimos que não existem estão bem nas nossas frentes. Moro a uma distância do meu trabalho, que fica no centro da cidade, que me permite ir a pé, e sempre que saio de óculos escuros e o Smartphone na mão aumenta a probabilidade de me chamarem à atenção para me medirem dinheiro, embora eu tenha usado por várias vezes os óculos como máscaras pros olhos pra fingir que não os vi e passar despercebido, ato que ninguém julga como alienação porque quase todos agem do mesmo jeito.
Há algum tempo quando saia do banco em um dia de chuva o meu pré-conceito sobre moradores de rua mudou radicalmente, saímos eu e uma pessoa quando uma mulher, moradora de rua (e não vou chamá-la de mendiga, porque isso se tornou pejorativo e nenhuma pessoa nasceu pra isso) estende a mão em nossa direção e diz a pessoa que saio comigo: “moça, ajuda com alguma coisa” e a resposta saiu como um reflexo àquilo que aparentemente era um pedido fácil de ser concedido, o que muitos de nós repetimos a eles por inúmeras vezes, “não tenho” sem ao menos a olhar nos olhos, e depois escuto: “ela pode trabalhar”, mas o que todos ali ignoraram é que ela tinha uma criança nos braços, quando aquela criança levantou sua mão acariciando o rosto da mãe e a mãe a beijou meu peito apertou e a garganta doeu, segurei um choro, tinha pouca coisa no bolso e entreguei àquela mulher que quando me olhou nos olhos me apresentou seu mundo de dor e desejos, de fé e tristeza, de pesadelos.
Sempre persuadia a não os ajudarem por acreditar que isso os motivava a não mudarem seu estilo, pensamento tolo. Sempre jogava a culpa no governo, e realmente é, mas esperava que eles agissem contra isso, outra grande tolice, porque assim como muitos o governo finge que eles não existem, até porque se algum candidato político lançar como proposta tirar as pessoas da rua seria uma campanha fraca porque pouquíssimos se importam. Minha reflexão foi a respeito de que se eu abrir mão de uma noite social dou a uma pessoa pelo menos duas refeições descentes na semana, você pode confiar e entregar seu dinheiro ou fazer como uma amiga faz, pedir pra que compre onde ela esteja perto e ela pagar. Os moradores de rua nem sabiam das minhas razões por não ajudar, não dão a mínima se a culpa é da sociedade ou do governo, eles apenas têm fome e frio e muito além disto têm sentimentos e desejos, não consigo imaginar se têm paixões, mas são pessoas, pessoas, vivas, humanas!
Não vamos conseguir acabar com a miséria do mundo, não vamos conseguir ajudar a todos que encontrarmos, mas isso não nos serve de desculpa e nem é argumento pra não ajudar nenhum. Por favor, não pense se são pessoas boas ou más, não os veja como lixo, não tenha vergonha de ser abordado por um morador de rua em publico, não os difame, não os julgue, olhe e veja pessoas que precisam de ajuda de outras pessoas, ajude. Imagine que em uma situação diferente, fora da miséria, aquele morador seria um bom cidadão e talvez seu amigo. Enxergue a humanidade dentro dele e não a circunstancia.

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